O Zen e o Taiko

Nós percebemos o mundo, e “como o percebemos” é resultado de uma mescla de captações sinestésicas, experiências colaterais (experiências anteriores) e uma infinidade de outras relações. A minha é muito influenciada pelo Zen, especificamente da escola Soto Zen Shu. E é a partir disto que escrevo a minha percepção em relação ao taiko a pedido de um grande amigo, Tamashiro.

Percebo uma movimentação borbulhante entre temas como “O tocar Taiko” e o “Espírito do Taiko”, o que realmente me deixa extremamente feliz com estas iniciativas e admirado com o nível dos pensadores brasileiros do taiko. Dentro deste universo (e porque não, também fora dele) gostaria de sugerir mais uma pauta para estas discussões tão produtivas que estamos tendo. Inclusive, recomento a leitura do artigo “Fundamentos Zen do Taiko”, do outro grande amigo e exemplo de taikouchi, Thiago Rolim, que mantém relações de temas bem próximas.

O que proponho é um outro foco de estudos, deixando de lado o objeto (A técnica, O Espírito) para o foco que o Zen tenta promover: Quem toca o taiko?

EiheiDogen, nascido no ano de 1200 na cidade de Kyoto, foi o fundador da escola zen-budista Soto, depois de anos de estudo e peregrinação pelo Japão e China com diversos mestres dos ensinamentos de Buda. Não vou me aprofundar em sua história, mas para os que se interessarem, recomendo (apesar de ser com certa cautela, afinal é mais romanceado do que a história real) o filme “Zen”, recente, de 2008 se não me engano, que conta a trajetória deste monge e de sua escola.

Dogen disse: “Estudar o Caminho é estudar a si próprio. Estudar a si próprio é esquecer-se de si próprio. Esquecer-se de si próprio é tornar-se iluminado por todas as coisas do universo. Ser iluminado por todas as coisas do universo é livrar-se do corpo e da mente, de si próprio bem como dos outros. Até mesmo os traços da iluminação são eliminados, e vida com iluminação sem traços continua para sempre.” (Fonte: Wikipédia, página sobre Dogen)

O mestre inicia dizendo que “estudar o caminho é estudar a si próprio”. No Zen, a prática da meditação Zazen é responsável por esta declaração. Quando se está na posição de Zazen, as atividades voluntárias dos braços, pernas, olhos e língua estão paralisadas. Diz-se que na mente, os pensamentos devem ir e vir de forma natural, sem as interferências dos julgamentos do ego que escolhe coisas boas e repulsa coisas ruins. Desta maneira é possível começar a perceber o fluxo natural do universo, as coisas como elas realmente são, além dos julgamentos, além das classificações, além dos nomes, além da dualidade da mente. Provavelmente em um estado de iluminação no qual se percebe a unidade entre tudo o que existe no universo.

E é com a frase: “Estudar a si próprio é esquecer-se de si próprio. Esquecer-se de si próprio é tornar-se iluminado por todas as coisas do universo.” Que Dogen nos alerta sobre o ego e a unidade entre tudo.

Não há nada que não mantenha relações com outra coisa e com todo o resto. O bachi que você utiliza para atingir o couro é proveniente de uma árvore que foi cortada por uma pessoa, plantada por outra, ou até mesmo nascida da semente caída do bico de um pássaro. No final das contas, quem é responsável por você conseguir tocar taiko com este bachi? O pássaro que a plantou, a água que regou, o solo que nutriu, o homem que cortou ou o Kaitosan que confeccionou? A dualidade de nossa mente insiste em encontrar um início e um final para todo este ciclo, mas na realidade, todos estes são responsáveis pela existência do bachi e pela possibilidade de você tocar taiko. E isso é da mesma forma para o couro, para o seu happi e para tudo mais que existe.

Nesta realidade não há nada de sagrado senão a própria realidade. Nesta cadeia infinita de relações, as relações interdependentes, nada está acima ou abaixo, tudo com a mesma importância. Esta rede é responsável por toda essa unidade que Dogen declarou em seus ensinamentos. Quando você toca, você é o bachi e o bachi é você, Você é o taiko e o taiko é você. Não há mística, nem nada sobrenatural. Estas relações deixam claro que somos todos uma coisa só! Porém, nosso ego insiste em criar mecanismos responsáveis por nos iludir e nos fazer crer que você e o bachi são coisas separadas. O ego é tão ágil em criar armadilhas que ele se faz parecer ser maior do que aparenta.

Dogen continua: “Ser iluminado por todas as coisas do universo é livrar-se do corpo e da mente, de si próprio bem como dos outros.” Quando somos capazes de perceber a incrível unidade dos seres, creio que, conseguimos entender que não há separação entre corpo e mente, entre eu e você e entre você e o taiko. Nós nos livramos do nosso ego, nos livramos da nossa mente e nos livramos do nosso corpo, afinal tudo é um. Tudo está no caminho e o caminho está em tudo. Tudo está na iluminação e a iluminação está em tudo. Tudo está no taiko e o taiko está em tudo.

Inutilmente o ego tenta juntar mais e mais coisas: conhecimento, liderança, méritos... Porém, quando percebemos que somos parte de um todo maior, fica claro que nada se pode ganhar. Não há nada superior, portanto, não há maiores e melhores, consequentemente não há menores e piores. Não há méritos e nem títulos. Quando se pratica com a intenção de ganho, está prática imediatamente torna-se falsa. Não há nada para ser ganho, já somos a totalidade!

Da mesma forma, acredito que na prática do taiko não há o que se buscar. Existe apenas a prática equalquer sensação de ganho é ilusória. Quando não existe o desejo consegue-se estar em unidade com tudo e com todos. Acredito que é desta forma que devemos manter um grupo em todos os seus momentos. A harmonia na música deve surgir de um estado como o estado da meditação Zazen, quando somos um com tudo a nossa volta.

Por favor, não interpretem de forma niilista e negativa. Não há problemas em campeonatos, competições e desarmonias no grupo. O Zen não nega nenhuma destas coisas. O que é dito, é que se deve perceber as coisas como elas são. Batalhar e se dedicar para conquistar o primeiro lugar de um campeonato não tem problema algum. O problema começa a surgir quando o apego que o ego cria sobre determinada coisa cega o indivíduo. É este tipo de armadilha que nossa mente esta sempre se esforçando.

No exemplo, o apego ao primeiro lugar num campeonato vai trazer inúmeros sofrimentos, piores ainda se o objetivo não é alcançado. Buda disse que a origem de todo o sofrimento são as ilusões. As ilusões são ignorâncias, apegos e desejos de as coisas serem diferentes de como são agora.

Até mesmo quando momentos de crise surgem nos grupos, o desejo de um ambiente sem intrigas é um apego que vai gerar um sofrimento ainda maior. Por isso é essencial ver as coisas como elas realmente são: boas ou más, elas são como são. Afinal, bom e mal são construções mentais, o que é bom para um, pode não ser para outro. Neste momento, entender o que causa a desarmonia e manter a calma são essenciais para uma solução justa do problema.

O apego em uma execução de música perfeita ou num desempenho perfeito só trará o sofrimento de não admitir que as coisas sempre estão mudando. A impermanência é inerente à tudo e todos, sem discriminações. Talvez, a única coisa permanente que realmente exista é a própria impermanência (claro que esta frase é apenas um luxo da linguagem, naturalmente dual).

O caminho, a vida, a prática, o Dô () ou seja lá qual for o nome que você escolha, o importante é manter a atenção plena apenas no momento presente, olhando além da dualidade e em plena harmonia com tudo (inclusive com os companheiros que estão tocando ao seu lado), este é o estado Shizen (自然), um estado natural e no mesmo fluxo de todo o universo. Se uma faísca surgir, por menor que seja, de uma vontade em se destacar além dos demais, uma distância maior do que a distância entre o céu e a terra estará entre você e seus companheiros de grupo. Desta forma a real harmonia jamais será atingida.

Enxergar a unidade e a relação interdependente entre tudo e todos, nos faz perceber que o caminho, o taiko, o Zen, o Dô (ou seja lá qual for o nome escolhido) está em tudo. Varrer o chão do dojo é praticar, lavar a louça do kenjinkai é praticar, afinar taiko é praticar, apresentar é praticar, portanto praticar é praticar!

Para finalizar, apresento o que Dogen ensinou sobre o conceito de Shikantaza, que significa “apenas sentar”, em menção a meditação sentada do Zazen. O mestre diz que durante o zazen, não se devealmejar nada, deve-se apenas sentar. É uma forma de dizer que o próprio zazen (a própria prática) é a iluminação, sendo que não há diferenças nem separações entre ambas, são uma coisa só. Acredito que, da mesma forma que demonstrou Dogen, quando tocamos o taiko devemos apenas tocá-lo, sem objetivos de ganhos ou perdas, sem esperar algo. Somente assim nossa mente estará livre de fato para que encontremos a verdadeira harmonia.