Artigo - As Técnicas no Taiko

 

Antes de adentrarmos nas técnicas que o taiko possui, devemos realizar uma breve consideração sobre dois pontos fundamentais.

 

O taiko apesar de ser uma cultura tipicamente oriental ganhou um vinculo considerável com a musicalidade ocidental a partir do momento em que a Nippon Taiko Foundation* resolveu implantar o sistema de notas em sua metodologia. Portanto, o bom tocador de taiko que deseja desenvolver uma técnica de qualidade deve, antes de tudo, estar ciente de que o estudo da teoria musical é imprescindível para sua formação.

 

Em melhores palavras, o taikouti (tocador de taiko) que aprender breves noções sobre tempo e partitura já estará dando um passo na direção correta.

 

Outro ponto importante que deve ser observado são os postulados do taikouti, também conhecido como os “10 mandamentos da arte do taiko” e que são encontrados no Manual de Taiko**. Esses mandamentos são regras básicas desenvolvidas por alguns mestres de estilos distintos e foram criadas para formar uma orientação padrão, destinado para qualquer um que queira iniciar nesta arte.

 

De um lado temos uma ideologia desenvolvida pelo ocidente, o sistema de notas e partituras, de outro, um conjunto de regras que estruturam uma arte tipicamente oriental. Ambos se completam e contribuem para a formação de um tocador apto a executar as mais variadas técnicas num instrumento de percussão.

 

Realizada as considerações iniciais, abordaremos o tema proposto.

 

Existe uma bela definição sobre técnica no dicionário Michaelis: “Conjunto dos métodos e pormenores práticos essenciais à execução perfeita de uma arte ou profissão”. Interpretando esta definição sob a óptica do taiko, podemos dizer que técnica são os diversos métodos que possibilitam ou auxiliam a execução perfeita de uma música.

 

Desta afirmação chegamos à conclusão de que a execução perfeita de uma música é um conceito de grande subjetividade e por isso uma quantidade muito grande de metodologias distintas podem existir para uma mesma composição musical.

 

A meu ver, existem quatro tipos de técnicas que são trabalhadas com base nos sentidos do ser humano, afinal de contas, para apreciar o taiko deve se ver, ouvir e sentir, esta última sendo desmembrada em dois; sentir através da pele e sentir emoções.

 

Portanto, quatro são os aspectos importantes que irão influenciar as técnicas no taiko; o aspecto visual, o aspecto auditivo, o aspecto tátil e o aspecto emotivo.

 

1) O aspecto visual engloba a coreografia que o tocador executa durante a música, bem como a disposição dos instrumentos no palco e a vestimenta dos tocadores – Exemplos: movimentos grandes, curtos, rápidos, lentos, necessários, desnecessários, foco de setores, linha de referência, poluição visual no palco, sincronia dos movimentos, vestimenta incompatível com o tema, etc.;

 

2) O aspecto auditivo aborda a questão da composição musical que envolve o ritmo, a melodia e a combinação dos instrumentos. Há, ainda, um ponto importante que é a qualidade do som emitido pelo taikouti;    

 

3) O aspecto tátil, por sua vez, trabalha com a questão da força com que o instrumento é tocado. O taiko possui a capacidade de produzir um som tão intenso que pode ser sentido pelo público não só pelos ouvidos, mas também pela pele, fato que torna a questão da variação de força uma técnica muito interessante a ser trabalhada;

 

4) Por fim, o aspecto emotivo que trata das possíveis emoções que podem ser transmitidas pela música. Imaginemos uma composição musical que possui o tema “Matsuri” que significa “Festa” e é composta por batidas rápidas e acompanhada por uma flauta com melodia alegre, a idéia, neste caso, é causar no expectador um sentimento de euforia e alegria.

 

Segue abaixo alguns exemplos de técnicas aplicáveis para cada um dos aspectos mencionados.

 

1) Aspecto Visual:

            -Movimentos Grandes – Utilizado geralmente para batidas espaçadas;

            -Movimentos Curtos – Utilizado para batidas corridas;

            -Movimentos Necessários – Se na próxima batida será aplicada uma força muito grande, então, em regra, o movimento terá que ser necessariamente grande;

            -Movimentos Desnecessários – Se na próxima batida será aplicada uma força muito pequena, então, em regra, será desnecessário realizar um movimento grande.

 

2) Aspecto Auditivo:

            -Qualidade do som – Um ponto importante para o taikouti é a produção de um som nítido independentemente da força aplicada. Portanto, desenvolver um bom condicionamento físico é um fator necessário. Suponhamos que um tocador deseja iniciar um treinamento de Bujin, logo, terá que utilizar muito a perna e o tronco para manter uma boa postura e conseguir tirar um som considerável, por conseguinte, desenvolver a musculatura destes membros é fundamental.

            -Combinação dos Instrumentos – A seleção descuidada dos instrumentos pode comprometer seriamente a harmonia da música. Se eu tenho cinco shimedaikos e dois deles possuem uma afinação desigual, a menos que queira realizar propositalmente uma combinação diferente entre estes instrumentos, não haverá problema, mas se a idéia inicial era a produção de um único som para poder acompanhar os instrumentos mais fortes como o hiradaiko ou o nagado, então, neste caso, causará certa estranheza, pois a diferença de afinação gerará uma mescla de sons. Neste sentido é muito comum ver, em festivais e campeonatos, grupos pecarem na escolha dos instrumentos.

 

3) Aspecto Tátil:

            -É o único aspecto que possui somente uma técnica, a variação de força, mas nem por isso deixa de ter uma alta complexidade e importância. Para um melhor entendimento desta técnica, vamos montar uma tabela fictícia onde o lado esquerdo representa a força e o lado direito representa o movimento do tocador:

 

Força                                   Movimento

1 (força mínima)                    Soltar os dedos

2 (força 1 + 50%)                Utilização dos dedos

3 (força 2 + 50%)                Utilização da metade do pulso

4 (força 3 +50%)                 Utilização do pulso inteiro

5 (força 4 + 50%)                Utilização do antebraço

6 (força 5 + 50%)                Braço até a altura do ombro

7 (força 6 + 50%)                Braço na altura da cabeça

8 (força 7 + 50%)                Braço totalmente esticado

9 (força total)                       Braço totalmente esticado

 

A cada variação de força aumenta-se 50% da anterior, logo, ao chegar à força nº 08 onde o braço estará totalmente esticado, o tocador não conseguirá aplicar força total. Para resolver esta problemática é criada a força nº 09 onde se aproveita o mesmo movimento da força anterior para aplicação da força máxima.

 

Esta é a estrutura básica desta técnica carinhosamente apelidada de “pianíssimo a fortíssimo” ou “pp a ff”. Na teoria ela é muito simples, mas a sua inserção na prática demanda muito treino, além disso, esta técnica pode ganhar uma complexidade elevada se o tocador decidir fragmentar as forças, exemplo: Força 5, 6, 7 e 8 na utilização dos dedos.

 

A técnica de variação de força além de causar um impacto pelos motivos já mencionados serve também para não deixar que a música se torne monótona. No Brasil, em especial nas composições do campeonato, muito se observa que os grupos utilizam uma variação de força muito pequena, geralmente utiliza-se a força 03 e 06 para as partes calmas e a força 09 para as partes agitadas ou para finalizar a música.  

 

4) Aspecto Emotivo

            -O ponto fundamental neste aspecto é a adequação da música ao tema. Ao compor uma música o que se quer transmitir com ela? Seria conveniente pegar um tema como “Noite Triste” e colocar uma melodia alegre em 80% da música? Peguemos outro tema “A Batalha de Sekigahara”, observa-se uma composição que retrata bem o Jindaiko***, mas porque insiro nela movimentos de dança sendo que devo representar uma batalha?

 

Todos esses questionamentos têm uma associação muito grande com o aspecto emotivo. O que tenho observado nos grupos do Brasil é que muitos constroem suas músicas inserindo diversas batidas de maneira aleatória e somente ao final colocam um tema. Já cheguei a perguntar qual o significa de determinado trecho ou porque há um determinado movimento na música e muitas das vezes a resposta foi “não sei”.

 

Evidentemente nem tudo que criamos deve ser rotulado, o taiko como arte não só pode como deve ter criações que não podem ser exprimidas em palavras, mas o que defendo é a criação de uma metodologia mais coerente no que diz respeito ao nascimento da música.

 

Outra questão relevante é a interpretação da música, pois é através dela que o tocador consegue exprimir ao seu interlocutor os seus sentimentos. O taiko como arte musical e cênica possui todas as condições para poder seguir os formalismos interpretativos dos instrumentos ocidentais e acredito que esta ideologia contribuirá muito para o crescimento do ponto de vista artístico e científico.

 

Por fim, para concluir este tópico, recapitulo os três pontos importantes para o aspecto emotivo; 1) Adequação da música ao tema; 2) O que se quer transmitir com a música e; 3) Como a música deve ser interpretada.

 

Como se pode ver, muitas são as técnicas que podem ser desenvolvidas a partir desses quatro enfoques e todas elas podem ser aprimoradas até chegarem a um patamar de excelência.

 

Espero que este artigo possa contribuir um pouco para a criação de novas perspectivas.

 

Críticas, sugestões e dúvidas serão sempre muito bem vindas!

 

Um grande abraço a todos e até a próxima.

 

Victor Kouki Uemura

 

 

 

Notas:

 

*Nippon Taiko Foundation – órgão responsável pela administração e difusão da arte no Japão – site: www.nippon-taiko.or.jp/english/

 

**Manual de Taiko - Existem duas apostilas traduzidas para o português e podem ser encontradas na ABT (Associação Brasileira de Taiko)

 

***Jindaiko - A grosso modo, pode ser traduzido como tambores de guerra que os comandantes das tropas japonesas utilizavam no campo de batalha com o intuito de estimular seus combatentes.