FUNDAMENTOS
ZEN DO TAIKO
É fato que historicamente em qualquer nação o
primeiro instrumento musical desenvolvido é o de percussão. No Japão, o taiko.
Assim sendo, a primeira expressão musical feita pelo homem é extraído da
sonoridade de batidas feitas em um determinado objeto no qual se obtém uma
comunicação rítmica. Com o desenvolvimento das próprias habilidades mentais e
motoras, conseqüentemente, temos o desenvolvimento dessa primeira expressão
musical.
No entanto, em cada lugar do mundo, cada povo criou
sua própria cultura, e com isso sua própria identidade, e assim seus possíveis diferenciais.
Então, pode-se dizer que as principais diferenças das expressões artísticas de
cada povo se da no resultado do desenvolvimento peculiar de cada cultura.
A cultura se desenvolve a partir de causalidades
singulares que são construídas pela história, e dessa forma moldam o
significado que o povo dá para os fatos que se passam, tendo assim a emersão
das doutrinas e metodologias que regem a base do pensamento desta nação. Mas
esse é um aspecto que deve ser alvo de outros estudos com maior embasamento teórico,
só pegaremos essa definição para entender um pouco mais do assunto que será
abordado a seguir.
A cultura japonesa é conhecida por seus aspectos de
perfeccionismo e dedicação (entre outros), embasados em um puro conhecimento
filosófico oriundo de suas naturezas religiosas, que historicamente nos aponta
para os fundamentos do pensamento Zen.
Resumindo, assim o Taiko é considerado o
instrumento musical japonês mais antigo, talvez a forma mais antiga de
expressão artística (considerando que a música é assim tida por historiadores),
e seu grande diferencial ocorre por estar inserido nos
moldes da cultura japonesa, dentro de suas doutrinas e metodologias,
desenvolvidas com base no pensamento zen.
Pode-se explicar o fundamento zen do taiko fazendo
analogia com a forma de como um monge mestre ensina seu discípulo a meditar: Aprende-se
intelectualmente a meditar entendendo seus procedimentos de sentar-se, relaxar,
respirar, acalmar os pensamentos e caminhar para o estado de meditação. No
entanto esta explicação está completamente errada, na verdade é o oposto da
verdade Zen, pois a maneira mais verdadeira de se dizer como meditar não é
executar procedimentos até que se alcance um estado mental de compreensão do
eu, mas sim deixar de fazer tudo, tudo mesmo, aos poucos, excluir todos os
movimentos físicos e mentais até que a única coisa que lhe reste fazer seja
sentar e respirar. Esse é forma como um monge ensina seu discípulo a meditar
verdadeiramente
Assim como a meditação o taiko deve ser entendido,
pois se o zen se tornou o “DO” de qualquer arte japonesa, também é o “DO” do
taiko. (Verificaremos o sentido do “DO” posteriormente).
Para que se treina taiko exaustivamente? Para que
se esforça tanto? Para que tanta dedicação? Para ficar mais forte? Mais ágil?
Ter movimentos mais artísticos? Na verdade, assim como na meditação, o caminho
não é se esforçar para conquistar tantas execuções, mas sim para eliminá-las. Para
compreender um pouco melhor isso vou recorrer a fundamentos criados pelos
samurais no desenvolvimento de suas artes marciais. Em qualquer arte marcial o
aluno treina suas posturas e golpes exaustivamente para encontrar o “despertar”
através do fundamento “kikentai ichi”.
“Kikentai ichi” é o conceito de harmonia no
desenvolvimento de uma arte. Ki = energia; Ken = espada (vamos entender como a
técnica do instrumento); tai = corpo; ichi = um. Entende-se então que se deve
buscar a unificação entre a energia, o corpo e a técnica específica para o
instrumento (neste caso, não necessariamente o taiko, mas qualquer instrumento
marcial ou arma). Se, por exemplo, um lutador de kendo é extremamente
energético, mas não possui embasamento técnico e muito menos uma boa condição
física, de nada adianta sua energia, o mesmo vale para os outros fatores. Logo,
durante o exaustivo treinamento da arte, se busca a harmonia destes três conceitos,
mas o método empregado na doutrina que é o mais peculiar das artes japonesas,
pois o sentido do treinamento não é de acréscimo e sim de subtração.
O esforço em um treinamento exaustivo só existe
para o mesmo deixar de existir. Um praticante de Karate treina um kata
excessivamente para que em uma situação real os movimentos do kata sejam usados
sem ser feito o menor esforço, e assim em qualquer outro movimento específico
da arte. A força só é necessária para alcançar o objetivo de não mais se preocupar
com a existência da mesma. Trabalhando isso no fundamento do “kikentai ichi” um
praticante é capaz de alcançar o seu despertar na arte buscando a harmonia
através da subtração dos fatores que impedem sua execução até que se encontrem
no ponto nulo, o vazio que desvela a verdade, a essência da doutrina Zen.
O fundamento do “despertar” tem o mesmo sentido da
palavra “desvelar”, pois se mostra aquilo que anteriormente estava oculto, no
entanto sempre esteve lá, só antes não fora subtraído aquilo que o cobria.
O desvelar de um praticante para com a sua arte é a
descoberta da natureza da mesma, tornando os ensinamentos treinados um só com o
corpo, a energia e a mente, tendo a execução destes três fatores agora como uma
função tão natural quanto a própria respiração.A arte
passa a fluir pela própria existência sem que seja feito o menor esforço, pois
tudo que impedia isso de ocorrer foi eliminado durante o treinamento.
Normalmente as artes japonesas possuem o kanji
final de “DO”, como Kendo, Judo, Chado, Kyudo, entre outras. O “DO” significa
“caminho”, para que seja compreendido o método adotado pela doutrina da qual a
arte foi gerada. O “DO” corresponde ao mesmo significado filosófico da
expressão chinesa “TAO”, que indica um caminho de revelações obtidas através de
experiências físicas, mentais e espirituais para com uma arte.
O “DO” está presente na maior parte das artes
japonesas por ser uma doutrina que sirva de base para todas as expressões
possíveis da cultura japonesa, até mesmo a expressão da própria existência,
tendo assim um significado primordial para a compreensão de qualquer
manifestação a ser desvelada.
Assim se torna possível compreender que este mesmo
“DO” é a base da verdade a ser desvelada no taiko.
Aproximando ainda mais o pensamento Zen, uma música
só pode ser composta a partir do silêncio. Batidas e ritmos só tem sentido por
serem manifestadas a partir do silencio. Mantendo esse prisma se entende que a
música só existe por que o silêncio a permite existir.
Para tal objetivo temos a prática do “mokuso”, a
melhor forma de explicá-la é referenciando com o conto Zen da xícara vazia:
“Nan-In, um mestre
japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade
que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual
sobre suas dúvidas. Nan-In, enquanto isso, serviu o
chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a
enchê-la, derramando chá pela borda.
O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse: “Está
muito cheio. Não cabe mais chá!”
“Como esta xícara," Nan-in
disse, "você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como
posso eu lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua xícara?"
Todos sabem que um fator importante para a prática
do Taiko é o elemento de sincronização do grupo, sem esse não haveria
co-operação no seu fazer. Então pense que cada um dos tocadores de um grupo tem
sua vida, suas preocupações, seus objetivos, seus desejos, cada um buscando seu
caminho de suas diversas formas, mas no taiko é necessário que todos tenham a
mesma vida, a mesma preocupação, mesmo objetivo e o mesmo desejo, em um mesmo
caminho e da mesma maneira naquele momento, e a única forma de se conquistar
tal transcendência de espírito é na prática do mokuso. Quando todos esvaziam
suas xícaras se torna possível o fenômeno da sincronização, com tanto que todos
tenham a vontade de tomar o mesmo o chá, o taiko.
Confesso que estas e outras questões do pensamento
Zen acabam se tornando redundantes e infinitas, não é de fácil compreensão nem
de execução, mas exatamente por este sentido redundante e infinito existir é
que treinamos, afinal tudo que se faz no taiko são repetições e repetições e repetições em busca do desvelamento do sentido do mesmo, este é
o “DO” do taiko.
Todo conhecimento que tenho do pensamento Zen vem
de estudos particulares que fiz durante toda minha vida (principalmente no
período da faculdade), e dos ensinamentos que tive com o Monge Zen, Sensei e
amigo Haku'un Kainei, o qual me deu a iniciação no Zen Budhismo pelo nome de
“Yuuki”. E outros Senseis de outras artes como o Kendo (Okano Sensei) que
também se aprofundaram no mesmo estudo em busca da verdade sobre o “DO” e o
Zen.
Peço desculpas se o texto acabou por ser de difícil
compreensão, mas se é difícil ler, imagina então como é escrever.
Para maiores questionamentos fiquem a vontade para
entrar em contato, mandem e-mail ou adicionem no MSN, como preferirem: yukirolim@msn.com
Abraço a todos.
Thiago
Yuuki R. R. Lopes
Psicólogo – CRP: 06/99726