Entrevista com Fernando Kuniyoshi

Fernando Kuniyoshi é um dos mais experientes instrutores do Brasil. Pratica taikô desde 2003 e foi ao Japão para treinar taikô no final de 2005, retornando em 2008. Também é integrante do grupo Ishindaiko desde a sua fundação. Auxiliou diversos grupos no Estado do Paraná e em outros Estados.

Nesta entrevista, nós iremos divulgar um pouco da experiência do Fernando Kuniyoshi, que gentilmente concedeu esta entrevista.

 

1)   Antes de você viajar para o Japão, qual era sua expectativa em relação ao que iria aprender? O que você esperava?

 

Eu achava que iria estar ao lado de grandes mestres, e que poderia aprender todos os estilos que pudesse ser capaz de assimilar. Mas, como o taiko no Brasil é muito recente e o do Japão milenar, deixei nas mãos da presidência da Nippon Foundation colocar-me em algum lugar, o que poderia ao mesmo tempo fazer com que eu aprendesse a fazer taikos.

 

Eu achava também que iria aprender todos os tipos de técnicas na fabricação dos instrumentos e estava muito ansioso para aprender mais sobre a percussão japonesa. Então, colocaram-me em Osuwadaiko ao lado de Oguchi Daihachi sensei. No começo, não o conhecia.

 

Aprendi muita coisa além do que esperava sobre os taikôs, vários segredos e técnicas para se construir e afinar todos os tipos.

 

Porém, o mais conflitante e interessante, foi treinar um estilo muito antigo e preservado pelo Osuwadaiko. Um estilo mais ritualístico voltado ao “deus” Ashuyra, um deus da guerra.

 

Nagano-ken foi palco de várias batalhas históricas. O mais famoso personagem local foi um damyo, ou senhor feudal com grande habilidade militar, que procurou o controle do Japão no final da fase mais conturbada do país, o período Sengoku. O nome dele era Takeda Shingen.

 

Havia muitas informações em apenas um lugar, junto ao grande mestre, Oguchi Daihachi sensei. Mas pude treinar outros estilos através dos kentei shiken, quando estive no Japão.

 

2)   Você teve muitas dificuldades em relação ao idioma, alimentação e outros assuntos não referentes ao taikô?

 

Muitas. Às vezes, eu falava uma coisa e eles entendiam outra.  Usei bastante mímica. Mas aprendi o basico.

 

Apesar de ser nikkey, não domino o idioma japonês e por muitas vezes pedia ajuda a outros bolsistas e através de tradutor on-line tentava “desvendar” alguns documentos.

 

Quanto à alimentação, não tive muita dificuldade de adaptação. Eu até sinto saudades.

 

3)   Quais foram os grupos ou escolas que você participou? Como foi sua participação?

 

Eu participei ativamente no grupo Osuwadaiko, treinando em dois times. Um liderado pelo Oguchi Daihachi sensei e o segundo orientado por Furuya  sensei.

 

Mas, estar ativamente na vida de um grupo tão antigo e histórico vai muito mais além de treinos, apresentações, construção de taikos e ajudar em aulas para iniciantes em outras cidades.

 

Tive que ajudar em outras tarefas, como ficar tirando a neve da frente do dojo do Osuwa durante as manhãs por uma semana. Ajudar a montar cerimônias de funeral (o Osuwadaiko tem uma funerária também). Ou seja, o pesado acabava sobrando também. (risos).

 

E foi através do kentei shiken para 2º nível que pude ter contato e treinar estilos de Hachijyo Daiko e Oedo Sukeroku Taiko.

 

Depois participei de um workshop, 4 dias intensivos com Seido Kobayashi sensei e equipe Oedo Sukeroku Taiko, além dos campeonatos regionais, nacionais e internacionais; taiko matsuris e shows do Kodo que pude ir somente como espectador.

 

4)   Quais as principais diferenças que inicialmente você percebeu entre o taikô do Brasil e o Japão?

 

O taiko do Japão é levado muito a sério, tem muito mais apoio da sociedade e do governo, é bem mais organizado e sempre tem público e um patrocinador poderoso. Mas isso é normal, pois faz parte da cultura japonesa e somente eles poderão preservá-lo e divulgar ao mundo.

 

Não tem como comparar ao Brasil. Seria como comparar o Carnaval brasileiro ao Carnaval feito em outro país do Oriente.

 

E no Japão temos vários estilos tradicionais que nunca mudam a sua forma, além dos estilos híbridos e modernos que espalham o taiko pelo mundo.

 

5)   Como foi sua primeira aula? Você teve muita cobrança?

 

Nas primeiras aulas não houve muita cobrança, eles nem sabiam qual era o meu nível, então havia mais incentivo que cobranças.

 

Mas, com o passar do tempo, as cobranças começam e só terminam quando se descobre o limite. Tanto físico como psicológico.

 

6)   Quais foram as atividades que você desenvolveu lá?

 

·         No primeiro ano, tive que estudar nihongo todas as manhãs, trabalhar no taiko durante a tarde e treinar de noite. Duas vezes por semana com a orientacao de Oguchi sensei e Furuya sensei. Duas vezes sozinho.

·         Mas parei os treinos solitários para me dedicar um pouco à pesquisa.

·         Estive treinando e aprendendo o estilo de Osuwadaiko por 2 anos e tive o privilégio de participar de várias apresentações ao lado de Oguchi Daihachi sensei e equipe de Osuwadaiko.

·         Desenvolvi um nagado atraves de um barril de vinho;

·         Aperfeiçoei a minha técnica em construir okedo e shimedaiko;

·         Desenvolvi um projeto e ministrei aulas de taiko para filhos de dekasseguis de uma escola;

·         Participei dos testes Kentei Shiken.

·         Estive presente em alguns festivais de taiko; nos bastidores do Nippon Taiko JR Contest de 2006 e pude acompanhar a equipe de Atibaia em sua visita ao Japão.

 

7)   Você encontrou dificuldades a ponto de questionar se deveria desistir?

 

Sim. Sem comentários.

 

8)   Como foi seu retorno ao Brasil? Quais as atividades que você atualmente está se dedicando?

 

O retorno foi um pouco atribulado. Tive sorte por ter estudado numa cidade pequena e pude economizar bastante com a ajuda da bolsa de estudos. E com esse dinheiro, mandei ao Brasil meu nagado e shime desenvolvidos através de pesquisas.

 

Ao desembarcar, havia poucas pessoas para me receber além da minha família. Mas aos poucos comecei a me readaptar e aplicar meus conhecimentos, pesquisas e experiências para introduzir em meus treinos.

 

Atualmente estou me dedicando mais a orientar grupos de taiko. Técnica, kihon, criatividade, sentimento, manutenção dos instrumentos e convívio em equipe. Iniciando grupos pequenos, administrando aulas para adolescentes carentes que nunca tiveram acesso a cultura japonesa.

 

9)   Qual a sua expectativa sobre o futuro do Taikô no Brasil?

 

O Taiko é uma manifestação cultural milenar criada pelos japoneses, e um recente achado para os seus descendentes aqui no Brasil. Com a preferência massificante de crianças, adolescentes e jovens, o taiko apareceu no cenário nipo-brasileiro como sendo um modo para preservar a cultura e os bons costumes do Japão entre os mais jovens através da música.

 

Há nos tambores uma força muito grande, uma explosão de energia em seu ritmo pulsante. Dependendo do seu tamanho, o som residual consegue vibrar todo o corpo do tocador e o coloca em atenção.

 

O Taiko esteve sempre proximo, mas por anos adormecidos como acompanhamento nos eventos de obon odori, e super protegidos pelos seus donos.

 

Mas graças aos visionários que trouxeram os primeiros mestres ao Brasil com a intenção de disseminar a técnica do wadaiko, os taikos ganharam vida e começavam a tocar aos corações da sociedade nikkey. Em algumas cidades o Taiko não passou de uma febre passageira, pois na medida que os jovens iam crescendo, muitos mudavam de cidades para seguir seus estudos, seu trabalho, sua vida.

 

A renovação de seus membros é necessária e quanto mais jovem melhor, pois haverá mais possibilidades de trilhar esse caminho por mais tempo. E alguns trilham brilhantemente, com apresentações bem aceitas pelo público e participando em outros eventos em outras cidades.

 

O Taiko nunca irá morrer. Pelo contrário, irá ganhar aos poucos mais a confiança da sociedade e lentamente criará força.