A questão estilo.

Lucas Muraguchi

            Oi gente!

            Aqui vai um artigo meu sobre a questão dos estilos de Taiko e suas influências no taiko brasileiro. Antes de começarmos aqui vão três notas importantíssimas:

1-    TUDO neste artigo se baseia em minha opinião e experiência pessoal. Não possuo o conhecimento supremo do Taiko e estou bem longe dele. Meu amontoado de informação é limitado e estou propenso a erros (muitos). Além disso, aqui relato sobre minha opinião e conhecimento AGORA (Março de 2010). Muitas vezes já me vi corrigindo conceitos que afirmei no passado.

2-    Tratamos aqui sobre o tema “Estilo”. A palavra estilo possui inúmeras interpretações, em uma delas podemos dizer que cada grupo de taiko possui seu próprio estilo, e não seria mentira. Mas não é sobre esse “estilo” que trata o artigo. Aqui estarei me referindo ao termo estilo como aquele que possui nome, regras, características únicas e reconhecíveis. O termo estilo em sua forma mais excludente, que se aproxima do termo “linhagem”.

3-    Prepare-se, é um texto longo. Tentei ser o mais completo e abrangente possível. Indico-o, em especial, aos líderes (que por vezes se vêem confusos ao ter que explicar esta questão).

Tendo estas notas compreendidas, here we go!

No mundo do Taiko, muito se fala sobre estilos. E, aqui no Brasil, 90% do que se fala é mentira, preconceito ou mal-entendido. Como o principal meio de comunicação é o boca a boca, esta conseqüência acaba por ser natural, porém não adequada.

É justamente para esclarecer os interessados pelo tema e para apresentar um documento escrito para tal que redijo este artigo, algo que provavelmente deveria ter feito há muito tempo. Mas agora creio que conto com uma bagagem de informação e opinião mais consolidada e com o site do Felipe Tamashiro, um veículo mais adequado para artigos como este (muito melhor que o Orkut).

Vamos começar por um preconceito muito difundido no Taiko brasileiro, que pode ser resumido na seguinte pergunta: “Seu grupo é Kawasuji ou é Wadaiko?”. Juro que tenho calafrios quando escuto esta frase. Ela se baseia em desentendimentos vários que ocorreram ao longo dos últimos anos. Só para deixar claro desde já: Kawasuji É Wadaiko (também podemos dizer que Kawasujidaiko é um estilo de Wadaiko). Para nos aprofundarmos  nesta questão precisamos voltar um pouco na linhagem e no tempo.

 

Voltando na linhagem.

Voltando na linhagem, temos a arte da percussão, que consiste basicamente e resumidamente na produção sonora através do ato de bater. Dentro da arte da percussão existe o Wadaiko, que se refere aos tambores japoneses e à arte de sua execução. Dentro do Wadaiko existem 4 sub-divisões:

Tanshiki Tanda – Um só percussionista e um só taiko.

            Tanshiki Fukuda – Vários percussionistas e um só taiko.

            Fukushiki Tanda – Um percussionista e vários taikos.

            Fukushiki Fukuda – Vários percussionistas e vários taikos.

            Este último também é conhecido por Kumi-daiko (Taiko de grupo) ou taiko moderno. Daihachi Oguchi-sama é considerado o pai do Kumi-daiko e o responsável pelo “boom”do Taiko moderno. Ele era um baterista de Jazz que, por volta de 1950, uniu diversos taikos para diversas pessoas, fundando assim uma forma nova de tocar taiko, uma nova forma de expressão artística, onde os taikos eram o instrumento principal.

            Dentro do kumi-daiko existem diversos estilos. Dou como exemplos o Oedo Sukeroku de Tokyo, Yatai Bayashi e Kawasuji. É importante saber que estes estilos não são sempre divisões formalizadas e bem definidas, e que as nomeações nem sempre são pelos “estilos” propriamente ditos: Oedo Sukeroku é um grupo (o primeiro profissional de Tokyo, aliás), Yatai Bayashi é uma música e Kawasuji é uma escola de Taiko (escola no sentido mais próximo de linhagem e não de centro educacional). Também vale lembrar que nenhum desses estilos é fixo e rígido, de tempos em tempos eles passam por mudanças.

            Dentro destes grandes estilos, ainda existem outras divisões. Yoichi Watanabe-sensei estudou sob a Oedo Sukeroku, e descendendo desta criou o seu estilo Amanojaku. Yatai Bayashi é tocada por diversos grupos que a assimilam de formas diferentes. E dentro da Kawasuji existem muitos grupos mesmo no Japão (que nem sempre tocam da mesma forma), dentre estes o Kawasujidaiko Rakkozá, hoje Japan Marvelous.

            Contando um pouco da história da Kawasuji. O estilo Kawasujidaiko foi fundado há cerca de 40 anos em Fukuoka. Este estilo caracterizava-se basicamente pela música Kawasujidaiko, que apresenta movimentos únicos e características exclusivas. Depois, Yukihisa Oda-sensei, já presidente da Kawasuji, com o intuito de ”modernizar” o grupo, convidou Nishiguchi Masaru-sensei para ser o líder de seu grupo principal, o Rakkozá. Masaru-sensei era tocador do Tachibana Hibikizá (também do sul do Japão), e na verdade, devido a influência de Masaru-sensei  algumas das músicas (como Hibiki e Irodori) e parte do estilo que conhecemos por Kawasuji é proveniente do Hibikizá.

 

Voltando no tempo.

 

Voltando no tempo, lá por 2002, Oda-sensei veio ao Brasil, à convite da JICA, para ministrar aulas de Taiko. É claro que antes disso já existiam os grupos de Bon Odori, Eisá (Taiko de Okinawa) e alguns poucos de kumi-daiko (tais como Tangue Setsuko do estilo Sukeroku, Setsuo Kinoshita e Godaiko).

Indo além da proposta original, Oda-sensei não se limitou a ensinar poucos grupos específicos. Ele fomentou e incentivou a criação e desenvolvimento de dezenas de grupos por todo o Brasil. Além disso, ensinou a fabricação do okedou-daiko (antes praticamente só existiam alguns poucos nagadou-daiko geralmente usados para acompanhamento de Bon Odori). Os okedou são bem mais baratos, leves e fáceis de fabricar, e possibilitaram uma difusão rápida e ampla do taiko pelo território nacional.

Com este crescimento exponencial e monstruoso que o taiko nacional teve nos últimos anos, podemos dividir a história do Taiko brasileiro em antes e depois de Oda-sensei.

            Também com Oda-sensei tivemos a criação da Associação Brasileira de Taiko, que posteriormente, através do contato direto com a Nippon Taiko Foundation, trouxe outros valiosos senseis para o Brasil, como Watanabe-sensei, Kageyama-sensei, Furuya-sensei, Matsueda-sensei...

            Infelizmente a partir de um desentendimento entre as partes, houve uma ruptura entre a ABT e Oda-sensei. Os motivos e fatos desta ruptura são também permeados de preconceitos e idéias errôneas sobre o acontecimento, e talvez até mereçam outro artigo só para esclarecê-la.

            Sem o apoio da ABT e para dar continuidade em seu trabalho no país, Oda-sensei criou a Associação Kawasujidaiko do Brasil, responsável pelo Festival Kawasuji e pela vinda de outros senseis para o Brasil.

            Embora alguns preconceituosamente falem o contrário, não é necessário escolher entre uma das duas associações. Pode-se ter ótimas relações com ambas, e é isso que os grupos associados pretendem. Aqui a relação não deve ser de oposição, e torço pelo dia em que as duas entidades estreitem seus laços.

            Mas é justamente por causa dessa imaginada “oposição” que veio a odiosa pergunta “Seu grupo é Kawasuji ou Wadaiko”. No fim das contas os grupos da Kawasuji são aqueles que participam do Festival Kawasuji, fim. Não existe um traço exclusivo que venha a distinguir os grupos da Kawasuji dos demais. Como eu disse, Kawasuji é mais uma linhagem de grupos do que um estilo propriamente dito.

            Assim como os afiliados da Kawasuji possuem outras influências, os grupos não afiliados (embora muitos não assumam) possuem uma pesada influência da Kawasuji. Ou seja: sob uma visão generalizada os grupos não-Kawasuji tem um estilo tão Kawasuji como os Kawasuji e vice-versa.

 

Então como fica o meu estilo?

 

            Aí você me questiona: “Então, afinal, qual o estilo do meu grupo?”. Bom, se o seu grupo foi formado depois de 2002, ouso dizer que (salvas raríssimas exceções que provavelmente posso contar numa mão só) a forma de tocar do seu grupo se caracteriza como uma miscelânea de diversas formas e que ele não possui nenhum estilo puramente e propriamente dito. E isso se deve aos fatores citados a seguir:

            O primeiro deles é que os grupos “pós-2002” possuem muitíssimas influências em pouquíssimo tempo. São muitos senseis do Japão (Oda-sensei, Watanabe-sensei, Minowa-sensei, Furuya-sensei, Miyuki-sensei, Kokubo-sensei, Masaru-sensei, Daichi-sensei... entre vários outros, cada um deles com métodos e técnicas distintos) que plantaram suas sementes aqui. Além disso, nenhum desses grupos teve um só sensei “full time” por um longo prazo (diga-se no mínimo 3 anos) Para que sua “semente” se desenvolvesse num tronco rígido.

            Curiosamente, existem diferenças num mesmo sensei e num mesmo estilo. Por exemplo, quando Watanabe-sensei vem para o Brasil, ele acaba ensinando o estilo Amanojaku em suas músicas e o estilo da Nippon Taiko foundation nos testes de graduação. E mesmo o estilo da Nippon Taiko Foundation é ensinado de forma diferente por Watanabe-sensei e Minowa-sensei.

Além da influência dos senseis, temos outra muito poderosa: os demais grupos. O Taiko brasileiro é muito unido, os grupos e tocadores se consideram amigos e trocam informações, visitas e apresentações muito frequentemente. Como dito no parágrafo acima, nenhum desses grupos possuiu um sensei fixo, então, para sobrepor esta lacuna, o intercâmbio com outros grupos de dicas, inspirações e técnicas tornou-se um fator de influência valioso. 

E ainda contamos com os vídeos e apresentações internacionais. Dificilmente os tocadores se limitam ao que eles aprendem nos treinos. Costumam buscar referências em vídeos, apresentações e músicas de outros grupos, principalmente os profissionais. Com o advento do YouTube esta coleta ficou infinitamente mais fácil e rápida (poucos sabem como era raro e demorado conseguir vídeos de taiko. VHS de péssima qualidade e downloads de msn onde 1 música demorava 30 horas, isso se a conexão não caísse). Agora temos quase todos os grupos de Taiko do MUNDO INTEIRO num clique.

Logo os grupos acabam bebendo de inúmeras fontes.

O segundo fator que me permite afirmar que os grupos brasileiros, em geral, não possuem um estilo puro é porque estes não se preocupam em desenvolvê-lo. Existem duas formas de se desenvolver um estilo: seguir à risca um estilo já consolidado ou desenvolver o seu próprio.

Seguir à risca um estilo japonês consolidado, por mais que se tente, raramente é conseguido. Os motivos são: a já citada variedade de influências; a falta de acompanhamento constante de um sensei; a ausência de um conhecimento profundo sobre as regras e formas do estilo; a perda de informação que existe durante o ensinamento (hipoteticamente: um sensei passa 70% do seu conhecimento para o líder, que passa 80% do que sabe para os sempais, que passam 80% da informação para os kouhais, que acabam com menos da metade do conteúdo inicial). Apesar dos obstáculos, Isso não quer dizer que não deva se tentar este caminho.

Desenvolver um estilo próprio também não é conseguido em totalidade. Os grupos se esforçam para “tocar cada vez melhor” e raramente se focam em “desenvolver um estilo diferente”. Acho isso adequado, já que desenvolver um estilo próprio demanda: um conhecimento muito profundo de taiko e de seus diversos estilos (tão profundo que ainda não encontrei nenhum brasileiro que eu considere experiente o suficiente para tal), um tempo centrado em seu desenvolvimento (no mínimo uns 5 anos talvez), um grupo com forte bagagem técnica, originalidade e senso crítico. E creio que os grupos ainda não possuam plenamente estes recursos. Note que não estou falando em “tocar diferente” (isso é relativamente fácil) e sim em “desenvolver um estilo diferente”.

Já vi alguns grupos clamando ter um “estilo próprio” ou “estilo do grupo X”. Mas isso me soa um tanto precipitado ou prepotente. Estes grupos realmente apresentam os requisitos para tal (os citados no parágrafo acima, por exemplo) ou será que é só uma forma de justificar sua distância de qualquer estilo específico? E quem conhece estes grupos, pergunte-se: Eles realmente possuem uma linha exclusiva e original?

O terceiro fator é o tempo. 99% dos grupos de taiko e tocadores são muito jovens e recentes. É preciso amadurecer e se desenvolver muito na arte do Taiko para que o conceito estilo seja construído. São necessários muitos anos para a definição de um estilo (preexistente ou novo), tanto para o tocador quanto para o grupo.

O que eu vejo muito são tocadores que não tem nem 5 anos de taiko pensando em definição de estilo novo. Gente que só sabe uma forma de segurar bati e uma forma de levantar os braços. Gente ainda sem olhar crítico e experiência analítica para diferenciar formas. Gente sem maturidade de taiko para compreender a questão. Gente sem técnica sequer para dominar uma forma básica querendo partir logo para o avançado.

Tem muitos tocadores que querem ousar, misturar taiko com isso e com aquilo, mas não dominam nem o básico do Wadaiko. Watanabe-sensei conseguiu fundir taiko e samba, mas é um expert de primeira classe em taiko e estudou ritmos latinos por muitos anos. Bem diferente daqueles tocadores que querem colocar o carro na frente dos bois.

A exceção está em misturar e ousar como forma experimental, de diversão ou como exercício, o que eu acho válido e pode até ser útil para o desenvolvimento do tocador/grupo. Mas é importante caracterizar isso como o “lado B” do tocador/grupo, e não seguir como seu objetivo principal.

 

Concluíndo.

 

Este artigo objetiva elucidar os leitores sobre a questão do estilo, que é alvo dos mais descabidos preconceitos.

Praticamente todos os grupos “pós 2002” apresentam uma forma de tocar que é fruto de influências várias. E que no final não se encaixa em nenhum estilo “puro”. Afinal são grupos muito recentes e com tocadores ainda inexperientes. O que me leva a caracterizar sua forma como uma miscelânea de influências. (Note que afirmei que os grupos não possuem um estilo puro, mas não que estes não sigam um estilo ou trabalhem em prol de um).

Apesar dessa não adequação a um “estilo puro”, todos os grupos e tocadores possuem características e traços em sua forma de execução. Estas características e traços valem ser cuidadosamente e apaixonadamente desenvolvidos, assim cada grupo terá mais a “sua cara”. Neste ponto podemos dizer que cada grupo possui sua própria identidade (suas motivações, sentimentos, gostos, regras, influências, objetivos, macetes, segredos, técnicas, ensinamentos, traços, expressões, vozes, formas, musicalidades...), e essa unicidade tem de ser preservada e desenvolvida.

Mas é importante fortalecer a base antes de partir para o avançado ou para a inovação. Acredito que a diferenciação do grupo e de suas características vem com o tempo e com o trabalho duro. E que se deve buscar a melhoria e a superação, e com o passar dos anos o tocador/grupo acabará se diferenciando. Se focar somente em fazer diferente e em dar passos maiores que a perna raramente trás bons resultados.

O texto que você leu é um conteúdo explicativo sobre a questão dos estilos. Tentei esclarecer ao máximo o tema. Contudo, não expliquei (nem posso explicar) como se deve prosseguir a partir daí. Afinal cada um é cada um, cada grupo é cada grupo, e se desenvolver como tocador de Taiko e como grupo é uma tarefa e honra sua.

Espero que o artigo tenha sido elucidativo e clareie sua jornada no maravilhoso mundo do Taiko. Qualquer dúvida, comentário, crítica, informação ou papo furado: Lucas.muraguchi@gmail.com

Aquele abraço.