Entrevista com Lucas Muraguchi

 

Hoje, a palavra está com ele.

Lucas Muraguchi é um dos tocadores e líderes mais experientes da arte do Taiko no Brasil. Como líder e integrante do grupo Ishindaiko de Londrina-PR conquistou diversos títulos nos campeonatos nacionais. Em 2007 liderou a delegação do grupo Ishindaiko na viagem ao Japão representando o Brasil no Campeonato Júnior de Taiko, organizado pela Nippon Taiko Foundation. Além disso, possui grande experiência em apresentações e em liderança. Hoje estuda Comunicação Social na Escola Superior de Propaganda e Marketing em São Paulo e instrui workshops de Taiko em diversas cidades do país.

 

Primeiro quero agradecer a oportunidade de escrever aqui algumas das minhas opiniões sobre a nossa querida arte, Taiko. Falar sobre taiko é uma das coisas que mais gosto de fazer, talvez até por certo narcisismo da minha parte. 

 

Quando escrevo, não gosto de deixar assuntos não terminados. É por isso que algumas respostas estão longas. E é pelo mesmo motivo que algumas estão curtas demais, pois não conseguiria expressar tudo o que deveria e acabo me limitando.

 

Tenho uma personalidade que, para muitos, parece seca, arrogante e sarcástica. Na verdade eu sou somente direto, seguro e sagaz (que quer dizer a mesmíssima coisa de uma forma menos ofensiva). Só quero que não me interpretem mal: guardem para vocês as coisas que forem interessantes e simplesmente ignorem o que não agradar.

 

Espero que esta leitura não seja uma perda de tempo (nem para vocês nem para mim). Qualquer coisa: Lucas.muraguchi@gmail.com

 

Perguntas:


Como surgiu seu interesse pelo Taiko?

Acredito que o Taiko sempre esteve dentro de mim. Eu não sei quando nem de onde primariamente veio, só sei que desde que me lembro eu tinha isso no sangue. Recordo-me bem de quando tinha uns 4 anos de idade e pegava as latas de panettone na casa da minha batyan para batucar. Adorava aquele som, adorava o ritmo, adorava aquilo mesmo sem saber o que era.

 

Meus próprios pais afirmam que não sabem de onde vem essa veia artística, pois eles mesmos afirmam não possuí-la. Mas se eu puxei isso de algum parente, foi do meu bisavô Yoshio, de quem herdei meu segundo nome e provavelmente algumas características artísticas marcantes.

 

Meus primeiros contatos com o taiko foram com o taiko de Bom Odori. Eu dançava desde muito novo, antes de virar modinha, quando praticamente só obassans dançavam. Admirava a força e o tom daqueles tambores. Depois tentei entrar naquele grupo, mas fui rejeitado. Os membros não colocavam muita fé em mim. Que irônico.

 

Meu primeiro contato com o Kumi Daiko foi aos 8 anos, com um cd Spirits do grupo Yamato que eu ganhei dos meus pais. Passava horas escutando aquelas faixas magníficas, virei fã de imediato. Meus pais foram ao show que o Yamato fez em Londrina e me compraram o cd de lembrança. Não me levaram, pois acharam que eu não ia gostar de um show de Taiko. Que irônico.

 

E assim surgiu meu interesse por essa arte. Mas, até aí, não sabia que um dia o Taiko guiaria completamente a minha vida.



Quais as experiências mais marcantes no Taiko?

Caramba, são tantas. Poderia ficar eras contando momentos marcantes no taiko e estaria longe de terminar. Mas vou contar 3 parágrafos bem distintos, todos aconteceram há vários anos.

 

Quando aprendi Kenka Yatai com Yoichi Watanabe-sensei em Jundiaí, eu me esforcei como nunca tinha me esforçado na minha vida. Ao final dos treinos, meus braços estavam travados, não conseguia movê-los por vontade própria (somente empurrando contra a parede ou com a ajuda de outras pessoas). Não podia me vestir nem me alimentar com normalidade. Doía, mas eu me sentia feliz como nunca antes.

 

Era um treino de taiko em uma cidade do interior de São Paulo. Os grupos ainda estavam chegando, o treino não tinha começado. Entramos, eu e ela, no salão vazio e subimos no palco. Peguei-a pela mão e a levei ao corredor atrás do palco. Ela me disse que não gostava dali, que sentia medo daquele lugar. Eu respondi que não precisava ter medo. Que eu estava com ela, onde quer que fosse. E a beijei. Foi o primeiro grande beijo da minha vida, e eu me sentia feliz como nunca antes.

 

I Campeonato Brasileiro de Taiko. Acabei de tocar Shyakudozan (Montanha de Terra Vermelha, minha primeira música); desci do palco; sentei nos bastidores; ergui meus olhos e comecei a chorar sem motivo algum. Um turbilhão de sentimentos inéditos e únicos, e eu me sentia feliz como nunca antes.



Em termos técnicos e de liderança, como foi sua evolução desde seu primeiro treino?

Aprendi e continuo aprendendo sempre. Esta é uma pergunta difícil. Foram muitos momentos, muitos degraus, muitos aprendizados, muitos erros, muitos acertos (eu acho)...

 

É difícil descrever tanto em palavras, em parágrafos. Descrever meu crescimento é o mesmo que contar como me tornei quem eu sou.

 

Só posso dizer que espero que esta evolução tenha sido para um lado positivo.

 

 

Quais foram as principais dificuldades?
Dificuldades? Inúmeras, como todos temos. Para ser breve e citar somente uma delas: as pessoas que falam por trás e julgam sem nem ao menos conhecer. Perdi a conta de quantos comentários negativos e totalmente sem fundamento já ouvi sobre a minha pessoa e sobre o meu grupo. Sou a favor da livre expressão. Mas acho importante que o conhecimento prescinda o comentário, e não o oposto.

 

Hoje já nem ligo tanto para isso. Sei: quem me ama me torna mais forte. Quem me odeia me torna imbatível.


O grupo Ishindaiko é reconhecido pela qualidade técnica e administrativa. Para você, quais foram os diferenciais que o grupo Ishindaiko desenvolveu para chegar a este patamar?

Sabe que é algo que eu me pergunto ainda hoje: O que eu fiz para merecer um grupo tão grandioso como o Ishindaiko? Éramos um grupo de 3 pessoas sem instrumento, sem instrução e sem apoio. Tudo conspirava contra nós. Muitas pessoas ignoram um começo difícil e todo o trabalho duro que leva para um grupo crescer e simplesmente dão desculpas para a própria situação.

 

Alguns (eu disse alguns) pontos que fizeram do Ishindaiko um grupo único (isso é a minha opinião. Isso não é unanimidade nem exclusividade):

 

- Espírito crítico. Ser crítico com o grupo, com os outros tocadores, com as situações onde nos encontramos e consigo mesmos. Sempre podemos melhorar, sempre falta algo, sempre podemos nos superar. A crítica dói, mas é insubstituível.

 

- Amizade. A amizade faz parte da força de um grupo. Isso é algo que não se explica, sente.

 

- Orgulho. Tenha orgulho do seu grupo, da sua família, dos seus amigos. Tenha orgulho de ser quem você é. Tenha orgulho de viver seus momentos ao lado de seu grupo de taiko. Tenha no orgulho uma razão para sorrir.

 

- Reconhecimento pessoal. Se você é bom no que faz, não tenha medo de mostrá-lo. O medo é um muro que te esconde. Se você está no palco, mostre o que sabe, mostre sua cara, mostre seu trabalho, mostre o que o público quer ver. Saiba se exibir. Se exibir geralmente é tido como algo ruim, mas não quando se está no palco, afinal, quando os olhares forem seus, saiba enchê-los.

Quais os grupos nacionais e internacionais que você admira? Quais os principais aspectos que você destaca nestes grupos?

Internacionais:

TAO : Meu preferido. É um estado supremo da arte. O entretenimento, a magia, a originalidade, a melodia, a classe... Tudo é casado tão perfeitamente que modificar qualquer coisa é quase uma heresia. Sublime.

 

Yamato: Um grupo poderosíssimo. Batidas viscerais, bom humor, ritmos densos e um estilo instintivo. O Yamato é um grupo de uma performance hipnotizante e envolvente. (Muita gente diz que meu estilo de compor e de tocar teve fortes influências deste grupo).

 

Kodo: Não se conhece taiko se não se conhecer o Kodo. Um grupo de enredos impecáveis e sonoridades ímpares. Vai desde o tradicional ao inovador sem perder a elegância e o fulgor.

 

Amanojaku: Técnica perfeita e última. A força do taiko elevada ao extremo, em todos os âmbitos.

 

Kawasujidaiko Rakkozá: Nossos padrinhos e grupo que mais influencia os grupos do Brasil. Estilo ágil, batidas concisas e músicas que rapidamente se popularizam entre nós.

 

(tem mais dezenas de grupos que admiro, e ainda faltam os nacionais, mas aí acabo com a paciência de vocês, vou ficando por aqui)


Você é autor de diversas músicas que viraram referência para os grupos. Como é o processo de criação de suas músicas?
Essa talvez seja a maior curiosidade que os tocadores têm com relação à minha pessoa.

 

Quer saber a verdade sobre o meu processo de criação? Banho. Eu entro embaixo do chuveiro e as batidas simplesmente saem. Eu também não entendo muito bem como funciona. Muitas vezes a gente pensa melhor quando não pensa em nada. Só tenho dó da conta de luz e de água.

 

É claro que não é só isso. Mas o resto é muito complexo para explicar por aqui.


Qual é sua opinião sobre a área técnica e administrativa dos grupos no Brasil?

Área técnica – Está evoluindo bastante, algo que eu confirmo baseado no último campeonato de taiko (2009). Os grupos estão atingindo uma maturidade muito valiosa.

 

Muitos, inclusive senseis, dizem que os grupos do Brasil acabam mirando o Ishindaiko para se desenvolver tecnicamente. Cabe a cada um saber até quando isso é bom ou ruim.

Área administrativa – Sei muito pouco dessa parte. Mas tem dois pontos fracos que eu percebo.

 

O primeiro é a péssima escolha que alguns grupos fazem quando chamam alguém para lhes instruir. Freqüentemente vejo instrutores competentes não sendo chamados para dar treinos, ao mesmo tempo em que vejo grupos pagando por aulas de tocadores que eu não recomendaria.

 

O segundo é a lacuna de comunicação que se estabelece entre os grupos e a ABT. A administração de um grupo é responsável por levar os interesses do grupo e dos tocadores à Associação Brasileira de Taiko, algo que muitas vezes não ocorre. Não é fácil, mas é de suma importância para o crescimento do Taiko Brasileiro.


Qual a previsão que você faz para o Taiko no Brasil daqui a 5 e 10 anos?
 
Não faço. 5 anos é muito tempo. O mundo inteiro muda durante esse período. Imagine então 10 anos. Posso comentar algo com relação ao ano que vem, mas tentar prever o futuro do taiko, que é algo com crescimento exponencial e reviravoltas inesperadas, é pedir para errar.


Quais as dicas que você dá para os líderes dos grupos?
Quando se é líder, suas qualidades aparecem duas vezes mais. Em contrapartida, seus defeitos ficam dez vezes mais aparentes. Ele está sob o olhar inquisidor do grupo inteiro. Se você não tem medo das conseqüências, deveria.

 

Ser líder é um trabalho desgastante, praticamente impossível de se suportar se não fosse também gratificante. O líder tem que trabalhar pelo grupo, com o grupo e para o grupo.

 

O líder não define os objetivos do grupo. Quem o faz é o próprio grupo. Mas para se alcançar esse objetivo, existem infinitos caminhos possíveis que atingem infinitos resultados diferentes. O líder é aquele que chama os outros pelo caminho que julga ser o melhor e que faz de tudo para que este caminho seja um sucesso. Nesse caminho ele está um passo atrás dos buracos e um passo a frente dos indicadores.


Quais as dicas que você dá para um iniciante no Taiko?

1-Não existe verdade absoluta no Taiko (e nem em lugar algum). Nada que é dito, inclusive por senseis, deve ser tomado como verdade irredutível. Taiko é algo completamente pessoal. É uma construção-mosaico de abstrações subjetivas emolduradas por ondulações que viajam de um emissor a um receptor expressando uma identidade própria e irrecuperável no tempo.

 

2-Treinem: Treinem, treinem e treinem. Treinem –treinem- treinem. Treinem/treinem “treinem”; treinem (treinem) e treinem*.

 

3-Sinta prazer na dor, a dor é prova de que você está vivo. Sinta prazer no esforço, o esforço é sinal de que você pode. Sinta prazer no cansaço, o cansaço é sinal de que você consegue. Sinta prazer no taiko, o taiko é sinal de que você existe.
 

Currículo
Iniciou o Taiko em : Maio de 2003
Participou nos seguintes Campeonatos Brasileiros de Taiko.

I CBT - São Paulo Bunkyo (2004) – 5o lugar (cat. Geral) com Shyakudozan (compositor e tocador)

II CBT– São Paulo Bunkyo (2005) – Campeão (cat. Livre) com Fubuki (comp. e toc.)

III CBT – São Paulo Anhembi (2006) – Vice-campeão (livre) com Yukidoke (comp.) e Campeão (Jr.) com Ikazuchi (comp.)

IV CBT – São Paulo Bunkyo (2007) – Campeão (livre) com Kiryoku (comp. e toc.)

V CBT – São Caetano (2008) – Vice-campeão (livre) com Rekka (comp. e toc) e 5o lugar (livre) com Caramelo (comp. p/ Kaminari Wadaiko Tupã)

VI CBT – Marília (2009) – Campeão (livre) com Hadou (comp.) e 5o Lugar (Jr.) Com Biscoito (comp. p/ Dantai Fênix Presidente Prudente)

Principais apresentações

IX Junior Taiko Concuru – Kyoto. Prêmio Tokubetsu (equivalente ao top 15).